Como explicar para os outros quem é Poliana Okimoto

Compartilhe:

Por Beatriz Nantes

Lenda das categorias de base, uma das nadadoras que mais treina no país, fundista dedicada ao extremo (pleonasmo?), vive para nadar. Nada do que dissermos fará jus ao que é Poliana Okimoto, que hoje alcançou a única coisa que faltava em sua carreira, uma medalha olímpica.

“Conheci” a Poliana quando eu tinha 12 anos, e na época ela era só um nome: Poliana Okimoto, do Munhoz, a nadadora que junto com Camila Barbosa Correa tinha os recordes paulistas absurdos das provas de fundo no petiz. Os recordes duram 21 anos, já são bem mais velhos do que as nadadoras que hoje competem nessa categoria.

Screen Shot 2016-08-15 at 4.58.34 PM

Olhar os recordes de categorias de base é revelador. Há nomes de atletas que jamais chegaram ao juvenil, há nomes de integrantes da seleção brasileira, há nomes de fenômenos infantis que ‘de repente’ pararam de melhorar. A peneira das gerações é cruel, o esporte é cruel.

Mas Poliana foi passando pelo funil. Campeã absoluta pela primeira vez com 14 anos, melhor fundista do país, integrante da seleção brasileira. E foi nas águas abertas que Poliana encontrou o palco ideal para seu talento de fundista, que não cabia em apenas 800 metros, distância máxima das provas de fundo na piscina.

Ricardo Cintra, seu técnico e marido, falou bem quando disse que Poliana foi pioneira. Participou do primeiro Mundial de águas abertas, em 2006, de onde saiu com duas medalhas. Foi medalhista do PAN do Rio, terminando com a prata. Participou da primeira edição das maratonas aquáticas nas Olimpíadas, onde terminou em sétimo. Venceu o Circuito da Copa do Mundo em 2009, foi medalhista do Mundial no mesmo ano.

Ter longevidade no esporte é difícil; ter longevidade em provas longas é para pouquíssimos – para pessoas como Poliana. Treinar fundo em alto nível é para abnegados, para os que já sabem e não se importam em ser os primeiros a entrar e os últimos a sair do treino, para quem realmente gosta de contar os ladrilhos da piscina. Da última vez que fizemos as contas, no início de 2014, Poliana já poderia ter dado a volta ao mundo nadando quase duas vezes, somando todos seus treinos e competições.

Quando sofreu uma hipotermia durante as Olimpíadas de Londres e precisou abandonar a prova, o baque foi tão grande que Poliana quase parou de nadar. Corneteiros riram e alguns jornalistas fizeram a pergunta pseudo inteligente: “ela não sabia que ia estar frio?”. Dois anos antes, um nadador americano havia morrido em uma etapa da Copa do Mundo de águas abertas devido a temperatura elevada da água. É fácil criticar sobre um esporte que você nem entende e lamentar quando a tragédia já está dada, se informar é mais difícil.

Londres foi difícil, Poliana quase parou.. mas não. Poucos meses depois, ela estava na piscina treinando um mítico 200×100, em uma imagem compartilhada no facebook por muitos nadadores do Brasil.
Screen Shot 2016-08-15 at 9.06.12 PM

Quando fez aquele 200×100, Poliana não sabia que chegaria ao ouro do Mundial um ano depois ou ao pódio olímpico hoje. Esporte é isso: arriscar tudo ANTES, sem garantia de vitória.

Quando vi que Poliana tinha sido quarta, fiquei com o coração dividido: a colocação é ingrata, mas ela tinha nadado bem demais. Ficou atrás de três que foram melhores, paciência: isso é o esporte.

A desclassificação da francesa, minutos depois, deixando Poliana com o bronze, foi um final digno de filme. Quem iria gostar desse roteiro clichê, uma vida de sacrifícios, ganhando na última chance, de forma dramática, depois de tantos sofrimentos, quatro anos depois de toda frustração que ela sentiu? Esse filme no cinema seria mentiroso demais, mas a vida é muito melhor que a ficção, a vida é a vida.

Tem coisas que são engraçadas: quando um atleta brasileiro vai mal em Olimpíada, a derrota é dele; quando vai bem, a vitória é do Brasil. Quando é desclassificado, é burro  e irracional, quando o outro é desclassificado e ele sobe uma posição, o brasileiro é sortudo e indigno. Mas deixa isso pra lá: as reações das pessoas e as redes sociais são irrelevantes, e nem devia gastar tempo com elas, hoje o dia é só sobre as atletas.

Uma das muitas crueldades do esporte é decidir tudo em um único dia. Assim como Poliana treina como poucos e abriu mão de tudo pela natação, Ana Marcela também é assim – provavelmente todas as participantes da prova são. O pódio é pequeno demais e as histórias são muitas.

Dentre milhares de mini fundistas contadoras de ladrilhos, que começaram e pararam, que não chegaram ao absoluto, que chegaram e não mantiveram os resultados, que ficaram pelo caminho em campeonatos nacionais, que não chegaram às seleções, que pararam no último ciclo, que não passaram na seletiva olímpica, que treinaram milhares de quilômetros em sábados de carnaval, só três chegaram ao pódio olímpico. E Poliana Okimoto, aos 33 anos, é uma das três.

A Olimpíada já pode acabar.

Poliana+Okimoto+Marathon+Swimming+Olympics+8SP7KoNYEE6l

 

Comentários